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O debate sobre o fim da escala 6×1 começa a ganhar temperatura no Congresso Nacional, mas um posicionamento do deputado catarinense Jorge Goetten chama atenção justamente por pedir o contrário: menos calor político e mais racionalidade.

O parlamentar defendeu que a discussão sobre mudanças na jornada de trabalho seja adiada para depois das eleições gerais de 2026. Na avaliação dele, o ambiente eleitoral contamina o debate, transforma um tema técnico em bandeira ideológica e dificulta a construção de um consenso equilibrado entre trabalhadores e empregadores.
A proposta de revisão da escala 6×1 já avança na Câmara dos Deputados, com análise de admissibilidade na Comissão de Constituição e Justiça envolvendo duas PECs que tratam do tema. Enquanto defensores apontam ganhos à saúde e à qualidade de vida dos trabalhadores, entidades empresariais alertam para riscos econômicos relevantes, especialmente para micro e pequenas empresas.
Estudos citados por representantes do setor produtivo indicam possíveis aumentos de custos, necessidade de novas contratações e impactos nos preços e no emprego, sobretudo em áreas como comércio, turismo e serviços, setores que dependem diretamente de escalas contínuas de trabalho.
Para Goetten, a discussão ainda carece de dados consolidados e pode gerar insegurança no mercado de trabalho se conduzida sob pressão política.
Analogia crítica
Discutir o fim da escala 6×1 em pleno ano pré-eleitoral é como tentar reformar o motor de um avião durante uma turbulência: todos sabem que ajustes podem ser necessários, mas ninguém consegue avaliar com clareza o que é melhoria técnica e o que é apenas movimento para acalmar passageiros assustados.

A jornada de trabalho é um tema sério demais para virar slogan de campanha. Em períodos eleitorais, propostas complexas tendem a ser simplificadas em promessas fáceis, e promessas fáceis costumam produzir consequências difíceis depois.
O alerta do deputado catarinense revela algo raro no ambiente político atual: reconhecer o tempo da política e o tempo das políticas públicas. O primeiro vive de urgência; o segundo exige diagnóstico, números e previsibilidade.
Porque reduzir jornada pode ser avanço social, mas, se mal calibrado, pode também reduzir empregos, aumentar preços e transferir o custo justamente para quem se pretende proteger.
No fundo, a discussão não deveria ser “menos trabalho” ou “mais trabalho”, mas mais produtividade, mais qualificação e mais segurança econômica. Sem isso, mudar a escala pode ser apenas trocar o relógio da parede enquanto a engrenagem continua desajustada.
E talvez esteja aí o ponto central: antes de decidir quantos dias se trabalha, o Brasil ainda precisa decidir como produzir melhor.



