Fazer esporte em Lages quase sempre teve sinônimo de dificuldade. Aliás, as modalidades que existem sofrem para se manter. E não culpo ninguém por isso; nem mesmo o Poder Público que tem inúmeras limitações legais para investir no profissional, mas ajuda do seu jeito.

De repente, surge um nome, Leoas da Serra. O que seria? Um time, de Futebol de Salão Feminino. Mas que coisa! Como tocar, uma vez que há tradição no masculino, e mesmo eles, têm problemas para seguir a prática em competições?
A história se seguiu. Pessoas e a Instituição Uniplac abraçaram a causa, do jeito deles. Paralelamente, o apelo Leoas se expandiu nos bairros com escolinhas e outras atividades que, aos poucos foram ganhando notoriedade, e principalmente, respeito.
Nas quadras, a cada competição, as vitórias seguidas de conquistas foram se acumulando. O nome Leoas da Serra já estava abrangente, e avançando em territórios jamais pisados.
Das conquistas regionais, vieram as estaduais, depois as nacionais, e a ousadia chegou à América, como campeãs. Jesus, que passo gigante! Eram elas as donas da América no Futsal Feminino!

Porém, a partir desta conquista, viria o Mundial. Estavam comprometidas não mais apenas por Lages ou Santa Catarina, mas com todo o Brasil. A Copa Intercontinental às levaria para a Espanha, enfrentar as campeãs europeias. Sem saber qual seria o resultado, mas o sonho da conquista, este, estava sempre presente.
Junto com a ansiedade e a expectativa, as nossas Leoas começaram a se preparar, até chegar o dia do embarque para Madri, na Espanha, onde o time adversário, o Atlético Navalcarnero, aguardava.
A disputa não foi fácil. E as Leoas voltaram de lá derrotadas pelo placar de 3 a 1. Mas, era uma derrota circunstancial, porque ainda havia a chance da recuperação, em casa, em Lages, no Jones Minosso, e no calor da torcida. Sim, o apego à essa razão era claro, matemático. Bastava vencer no tempo regulamentar e na prorrogação. Pronto. O título então seria delas, das Leoas.
A hora é chegada. A decisão enerva. A adrenalina sobe. Não tem como saber como tudo termina. Mas, era sabido que só dependia delas. Então, a bola rolou e o resultado veio. O primeiro objetivo, vencer e levar para a prorrogação foi alcançado: 3 a 1.
Gente, e agora! Dá para imaginar a conversa do grupo antes de enfrentar de novo o Atlético? Seriam os 10 minutos cronometrados mais importantes de suas vidas. Era o tempo que as separavam o título mundial da categoria. Mas precisavam jogar, e muito.
A bola rolou, e com ela o susto. Um gol contra deixou as espanholas na frente. Era preciso correr e recuperar. Sem medo, e sem dar chance de o adversário comemorar o empate. Amandinha, a melhor do mundo, estava lá, no lugar certo para meter a bola nas redes: 1 a 1.

Tudo certo. Era preciso só manter a calma e buscar mais um gol. E não é que elas fizeram, ou melhor, e não é que Amandinha, bem posicionada recebeu o passe, escolheu o canto e fez o 2 a 1. Era o gol do título.
Que festa no Minosso. A torcida estava em êxtase. Apenas precisavam administrar o jogo, sem arriscar mais, para, enfim, extravasar no delírio da emoção. Fim de partida. Leoas da Serra: Campeãs do Mundo do Futsal Feminino.

Passado um tempo, já dentro da razão e com a ficha no lugar, subiram num caminhão dos bombeiros e desfilaram pelas ruas segurando o belíssimo troféu, até chegarem no Parque Conta Dinheiro, onde acontecia o último dia da 31ª Festa Nacional do Pinhão. Lá, elas e as adversárias de quadra, mas amigas para sempre, festejaram juntas, para enfim, almoçar e relaxar. O feito estava concretizado.
Defino assim, nesta crônica, o meu orgulho pessoal de poder contar que estas meninas jogam por Lages, por Santa Catarina, e pelo Brasil. E poder estar assim, bem pertinho, é para gente como nós que vive, que torce, e se emociona quando se perde ou se ganha.
O esporte é mágico. Mas elas, hoje, merecem serem chamadas de estrelas e idolatradas pela simplicidade. São mulheres, são guerreiras, e que ainda lutam contra o preconceito. Porém, a história de agora está registrada!