Os números estão nas ruas. Cães e gatos abandonados se multiplicam em praças, bairros e estradas da Serra Catarinense. São animais expostos à fome, às doenças, aos atropelamentos e aos maus-tratos. O que chama atenção é que, enquanto o problema cresce, muitos municípios parecem não demonstrar a mesma urgência para combatê-lo.
A crítica feita pelo deputado Marcius Machado na tribuna da Assembleia Legislativa expõe uma realidade preocupante: existe um programa estadual de castração disponível, há apoio técnico para adesão, mas diversas prefeituras ainda não fizeram o básico, que é formalizar a participação. O resultado é previsível. A cada mês de atraso, dezenas ou centenas de novos animais acabam nas ruas, alimentando um ciclo que depois exige ainda mais recursos públicos para ser enfrentado.
A questão não é apenas de bem-estar animal. É também um problema de saúde pública. A superpopulação de cães e gatos impacta diretamente comunidades inteiras, aumenta riscos sanitários e gera custos permanentes para os municípios. Castrar não é gasto. É investimento e prevenção.
Mais preocupante ainda é ouvir que recursos públicos destinados por meio de emendas parlamentares permanecem parados. Dinheiro que deveria estar sendo transformado em obras, serviços e melhorias para a população acaba, muitas vezes, preso à burocracia ou à falta de iniciativa administrativa. Recursos públicos não existem para render juros em aplicações financeiras enquanto as demandas da comunidade aguardam solução.
Quando uma prefeitura deixa de aderir a um programa gratuito ou subsidiado de castração, perde-se uma oportunidade de reduzir um problema social crescente. Quando deixa recursos parados, perde-se tempo, eficiência e qualidade de vida para a população.
Os gestores municipais costumam reivindicar mais verbas dos governos estadual e federal. É um pedido legítimo. Mas a cobrança também precisa funcionar no sentido inverso. Antes de pedir mais recursos, é necessário demonstrar capacidade de utilizar corretamente aqueles que já estão disponíveis.
A população espera ação, não desculpas. Afinal, tanto os animais abandonados quanto os recursos esquecidos em gavetas administrativas são retratos de um mesmo problema: a falta de prioridade para aquilo que realmente importa.
Foto: Ana Quinto / Agência Alesc